Faz
algum tempo que eu estou querendo escrever sobre o tema. Não para criticar jovens
parentes, mas para transmitir minha experiência, meus conhecimentos e (porque
não) minha sabedoria.
Eu
e minha irmã (assim como meu irmão) nunca chegamos a ser comunistas. No máximo
simpatizantes. Infelizmente nós, por razões que vocês conhecem, nunca pudemos
militar em um partido de orientação marxista. Agora, eu e minha maninha somos,
sim, marxistas. (um comunista não precisa ser marxista e um marxista pode até
ser anticomunista). Nós estudamos muito bem a filosofia e a economia política
preconizada por Marx. Não adianta o argumento de que os russos nos
transformaram em fanático, isto porque a dialética, que é uma forma de
pensamento lógico é baseado no movimento no tempo e no espaço. A dialética é
antidogmática (seria até o antônimo de dogma). Nada é permanente exceto a
mudança (Heráclito). Só existe verdade absoluta fora do tempo e do espaço.
O pensamento dialético não permite que as
pessoas sejam fanáticas! Você nunca é dono da verdade.
Eu
e minha irmã também tivemos dois anos de “História da União Soviética”. Se vocês
tiverem um pouco mais de humildade de perguntar a ela sobre como se deu a
Revolução Russa. Não como parente, mas como professora. Ela provavelmente vai
contar o seguinte: Em novembro de 1917, quando o POSDR (Partido Operário Social
Democrata Russo – os bolcheviques) tomou o poder e abriu os compêndios de Karl
Marx, e puderam ler para seu desespero e desapontamento: As primeiras revoluções
ocorrerão nos países onde o capitalismo estiver mais desenvolvido e depois
quebrando cada elo da corrente se espalhará por todo o mundo. Assim o
proletariado dos países mais desenvolvidos ajudaria os menos desenvolvidos a se
libertar.
Mas
a Rússia ainda era um país bem atrasado. Ao mesmo tempo e do mesmo modo que no
Brasil, no final do século XIX, aboliam a escravatura, os russos aboliam a
servidão (por decreto!). Em 1917 ainda havia muita servidão no interior da
Rússia!
O
comitê central do POSDR se reuniu e decidiu continuar o movimento. Eles tinham
esperanças de que o movimento desse certo desde que uma das duas hipóteses
acontecesse: a) Em pouco tempo ocorressem revoluções em países potências
capitalista (exemplo – Alemanha) e daí se espalhasse para outros países. b)
Transformar rapidamente em uma grande potência a ponto de ser possível
construir uma sociedade socialista, visto que a Rússia tinha dimensão
continental e se passara 50 anos após a morte de Marx e muita coisa havia
mudado no capitalismo. Tentar levar a revolução para outras potências. Nesta
reunião estavam Lênin, Stalin, Trotski e muitos outros.
Os
três tinham visões diferentes do que fazer com aquele “pepino”: Stalin era
muito “estativista”. Achava que tudo deveria ser controlado, em um primeiro
momento pelo Estado para paulatinamente enfraquecê-lo conforme as teorias de
Marx. Trotsky achava que a recém criada União Soviética deveria levar sua
experiência para os outros países, ajudando o proletariado de outros países a
fazerem a revolução. Lênin discordava dos dois. Ele achava que deveriam dar
incentivo a criação de pequenas empresas, se possível sob forma de cooperativa
(não obrigatório!). Assim criaram a NEP – Nova Política Econômica. Lênin também
achava que a recém criada URSS ainda era muito frágil para levar a revolução
para outros povos. A URSS deveria se fortalecer primeiro. Também tinha opinião
que a ajuda dos soviéticos aos proletários de outros países deveria ser feito
com muito cuidado, pois nenhum povo gosta de interferência externa. Lênin
morreu em 1924 e a história de sua carta testamento, que acabou caindo nas mãos
de Stalin, era considerado pelos historiadores soviéticos como verdadeiro!
Bom! Em 1922, com a criação
da URSS os bolcheviques apostaram! Mas o problema é que não deu certo. Desde o
nascimento (1922) todo sistema capitalista isolou a União Soviética, só se
aliando durante a segunda guerra por uma questão estratégica.
Aqui
um parêntesis: Uma ditadura é um governo fraco – não consegue governar
externamente ou internamente. É uma forma cara de se administrar, pois tudo
deve ser controlado e fiscalizado. Na democracia o próprio povo controla e
fiscaliza. Qualquer governante opta pela democracia.
Exatamente
por se sentirem fracos os soviéticos não conseguiram se democratizar e acabou
por concentrar demais a economia no Estado. De acordo com o marxismo o Estado
deve ser enfraquecido paulatinamente até que acabe.
No
início da década de noventa o pensamento comunista deu um salto de qualidade:
Foi quando a União Soviética, que já havia nascido doente, morreu e a China
contrariando Marx deixou entrar a economia capitalista no Estado socialista.
Nós
achamos que até o momento o PCdoB, o PCB, o PSTU ainda não conseguiram rever
seus conceitos à luz do materialismo histórico (ou seja, do movimento dialético
ao longo da história no século XX). No início do século XXI falar mal de Lênin
é chutar cachorro morto, chamar Stalin de monstro é chutar cachorro morto.
Criticar Trotski é chutar cachorro morto. Não que estas pessoas não têm seu
valor histórico. Eles deixaram um legado, mas estamos vivendo outra era.
O que seria o comunismo do século XXI? Aí já é
um novo capítulo, que os novos marxistas e comunistas estão escrevendo.
Resumindo e brincando ao mesmo tempo: hoje se fala muito em “sustentabilidade”.
O negócio é que o capitalismo não é nada auto-sustentável. Neste ponto é que nós
pegaremos eles.
Agora falando sobre a
política brasileira atual (devo dizer que falar em corrupção é desviar a atenção
do foco principal – a corrupção no Brasil não é a maior do mundo e pode ser
diminuída com uma reforma eleitoral), eu acho que o PCB, PSTU, PSOL (que abriga
muitos ex-comunistas) tem tido um posicionamento errado. Estão repetindo a posição
errada do PCB no início da década de 50. Aconselho reler o livro ‘Esquerdismo: Doença Infantil
do Comunismo’, escrito em 1920, quando Lênin, Stalin e
Trotsky ainda se alinhavam entre os bolcheviques. O livro era uma crítica ao
movimento de esquerda de outros países da Europa.
Temos que levar em
consideração que política se faz com “correlações de força”, ou seja, como na
famosa lei de Newton, o somatório de todas as forças políticas leva a uma
RESULTANTE, que é para aonde caminha o país. Quem resiste simplesmente cai
(como caiu Collor)! Nós estamos em um país em que o executivo é dominado pelo
PT, o legislativo pelo PMDB e o Judiciário pelo PSDB. É lógico que todas as
forças têm que negociar para chegar a uma solução para cada impasse. O PMDB é o
partido dos fisiologistas, quer levar vantagem em tudo. Na atual condição o PT
ou negocia com o PMDB ou renuncia. Renunciar é deixar o país nas mãos do PMDB que
apóia quem lhe dá mais vantagem. Parece que só o PCdoB percebeu isso! Se os
outros partidos ditos de orientação comunista, apoiasse o governo Dilma
estaríamos flexionando a resultante da correlação de força um pouco mais para a
esquerda. Conseguiríamos, desta forma mais conquistas para os trabalhadores.
Um comentário:
Puxa mano! Amei sua lucidez. Aliás, te amo muito.
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